Como Era Acampar no Primeiro Rock in Rio, em 1985? Barracas, Churrasco e Muita Improvisação

Há 41 anos, milhares de pessoas viajaram para o Rio de Janeiro para participar do primeiro Rock in Rio. Entre os shows históricos de Queen, Iron Maiden, AC/DC, Scorpions e tantos outros, havia também uma realidade que hoje chama atenção dos campistas: muita gente chegou ao festival levando sua própria barraca e encontrou nos arredores da Cidade do Rock uma maneira simples e econômica de permanecer por ali durante os dias de música. O Rock in Rio de 1985 entrou para a história da música brasileira, mas as imagens preservadas daquela primeira edição revelam uma história paralela que interessa especialmente a quem gosta de campismo. Enquanto os grandes artistas se apresentavam no palco, grupos de amigos ocupavam áreas de camping, preparavam comida, descansavam entre os shows e enfrentavam o sol, a chuva e até a lama para permanecer perto da Cidade do Rock. Naquela época o Brasil ainda vivia o anos dourados do campismo. Mesmo com equipamentos pesados, eles eram resistentes e garantiam conforto e portabilidade. As fotos do grupo Globo trazem uma nostalgia ímpar.

UMA CIDADE INTEIRA PARA O ROCK: A primeira edição aconteceu entre 11 e 20 de janeiro de 1985, em Jacarepaguá, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Para receber o festival foi construída uma enorme estrutura de aproximadamente 250 mil metros quadrados, que ficou conhecida como Cidade do Rock. Segundo a organização do Rock in Rio, 1,38 milhão de pessoas passaram pelo evento durante os dez dias. O palco tinha 80 metros de boca de cena e era considerado o maior do mundo na época. A dimensão do evento era extraordinária para o Brasil daquele momento. Foram 15 atrações nacionais e 16 internacionais, reunindo nomes como Queen, Iron Maiden, AC/DC, Scorpions, Rod Stewart, James Taylor, George Benson, Yes e The B-52’s, além de artistas brasileiros como Barão Vermelho, Os Paralamas do Sucesso, Blitz, Rita Lee, Ney Matogrosso, Gilberto Gil, Lulu Santos e Erasmo Carlos. Mas o que acontecia do lado de fora dos palcos também fazia parte da experiência.

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BARRACA, CHURRASCO E ROCK: Fotografias preservadas pelo Acervo O Globo mostram que havia campings instalados para o festival. Em uma delas, um grupo de ferroviários gaúchos aparece reunido em torno de um churrasco. A legenda registra a frase que resume bem o espírito daqueles viajantes: “É claro que não íamos perder esse lance de rock”. Outra fotografia do mesmo acervo mostra a realidade dos campings instalados para o festival e descreve que os frequentadores precisavam “se virar como podia”. As imagens revelam barracas, grupos reunidos e pessoas tentando aproveitar a experiência com os recursos que tinham à disposição. Para quem hoje está acostumado a encontrar grandes festivais com áreas de camping estruturadas, espaços delimitados, banheiros, chuveiros, segurança e serviços específicos para os campistas, as fotografias de 1985 mostram uma realidade bastante diferente.

O CAMPING COMO SOLUÇÃO PARA A VIAGEM: Um relato publicado posteriormente por um dos participantes ajuda a entender como alguns fãs chegaram ao festival. O grupo saiu de Minas Gerais em um Fusca, levando barracas, com a intenção de encontrar algum local para acampar nas proximidades da Cidade do Rock. Depois de uma viagem complicada, com problemas mecânicos e até dificuldades provocadas pela neblina na Serra de Petrópolis, os viajantes chegaram ao Rio e procuraram uma área de camping. Segundo o relato, encontraram um local bem em frente à Cidade do Rock, com preços considerados módicos e ducha fria durante o dia. O depoimento não representa necessariamente toda a estrutura disponível para o público do festival, mas é um registro interessante de como pelo menos alguns viajantes resolveram a questão da hospedagem: levar a própria barraca e procurar um camping próximo ao evento. Era uma época em que viajar para um grande festival exigia muito mais planejamento pessoal. Não havia a atual oferta de hotéis, aplicativos de transporte, reservas pela internet ou uma indústria de experiências montada ao redor do evento.

O CAMPING FAZIA PARTE DA EXPERIÊNCIA: As fotografias do Acervo O Globo ajudam a perceber que os espectadores não permaneciam o tempo todo diante do palco. Havia quem descansasse no gramado, tomasse sol, comesse, lesse o caderno especial distribuído durante o festival ou simplesmente esperasse pelo próximo show. Para os grupos que estavam acampados, essa rotina ganhava outra dimensão. O festival deixava de ser apenas uma sequência de apresentações e se transformava em uma viagem coletiva. O churrasco dos ferroviários gaúchos é um bom exemplo. Eles haviam percorrido uma longa distância para chegar ao Rio e, uma vez instalados no camping, mantiveram hábitos muito brasileiros: reuniram-se, prepararam comida e aproveitaram o tempo entre uma atração e outra.

SOL, CHUVA E LAMA: A primeira Cidade do Rock também não ofereceu uma experiência totalmente confortável. As imagens históricas registram pessoas enfrentando lama depois das chuvas e outras tentando se proteger do forte sol de janeiro. Para quem estava acampado, as condições climáticas certamente faziam parte da aventura. A diferença é que, em 1985, não existia a mesma infraestrutura disponível atualmente para lidar com grandes concentrações de público. O próprio acervo fotográfico mostra que os frequentadores improvisavam maneiras de enfrentar o calor e as condições do terreno. O festival era enorme, mas muitas situações cotidianas dependiam da criatividade do próprio público.

UMA VIAGEM PARA VER ARTISTAS QUE PARECIAM DISTANTES: É importante lembrar o contexto. Em 1985, a presença de grandes estrelas internacionais no Brasil ainda era algo muito menos comum do que atualmente. O Rock in Rio representou uma oportunidade inédita para muitos brasileiros assistirem pessoalmente a artistas que até então pareciam existir apenas nos discos, revistas, rádios e programas de televisão. O Memorial da Democracia destaca que o festival surgiu em um momento simbólico do país, durante o processo de redemocratização, e reuniu cerca de 1,38 milhão de pessoas em seus dez dias. Para uma geração que estava vivendo a transição para a democracia, o festival acabou tendo também um significado cultural que ia muito além da música.

A CIDADE DO ROCK ERA TEMPORÁRIA: A estrutura construída para o festival também tinha características impressionantes. Além do gigantesco palco, a Cidade do Rock possuía áreas de alimentação, lojas e serviços destinados a atender a multidão. Estudos sobre a evolução do Rock in Rio registram que a primeira edição ocupou 250 mil metros quadrados e recebeu 1,38 milhão de pessoas ao longo de dez dias. A estrutura incluía dois fast-foods, dois shopping centers com 50 lojas e centros de atendimento médico. Era praticamente uma pequena cidade criada para funcionar durante o festival. E, assim como surgiu rapidamente, aquela Cidade do Rock também desapareceu depois do evento. A estrutura original não permaneceu como o complexo permanente que existe atualmente no imaginário associado ao Rock in Rio.

DO CAMPING IMPROVISADO AO FESTIVAL-EXPERIÊNCIA: A comparação com os grandes festivais atuais é inevitável. Quarenta e um anos depois, o Rock in Rio se transformou em um gigantesco evento de entretenimento, no qual os shows são apenas uma parte da experiência. Na edição de 2026, por exemplo, o festival reúne dezenas de marcas e mais de uma centena de ativações, transformando a Cidade do Rock em uma enorme plataforma de experiências para o público. Em 1985, entretanto, a experiência era muito mais simples. O visitante comprava o ingresso, enfrentava a viagem, levava aquilo que pudesse carregar e encontrava seus amigos no meio da multidão. Para quem precisava economizar com hospedagem, uma barraca poderia ser tão importante quanto o próprio ingresso.

O CAMPISMO ANTES DA EXPERIÊNCIA: As fotografias dos campings do primeiro Rock in Rio revelam algo que vai além da nostalgia. Elas mostram que o campismo já era, naquele momento, uma ferramenta importante para viabilizar grandes viagens de lazer. Os ferroviários gaúchos não aparecem apenas como espectadores de um show histórico. Eles aparecem como viajantes que foram de longe, montaram seu acampamento e transformaram aqueles dias em uma experiência coletiva. Da mesma forma, o relato dos viajantes que chegaram de Fusca levando barracas mostra outra característica daquele período: para participar de um acontecimento dessa dimensão, muitas vezes era preciso fazer a própria logística. Hoje, grandes eventos oferecem estruturas muito mais sofisticadas. Mas a essência continua reconhecível: viajar, levar equipamento, encontrar outras pessoas, montar seu espaço e passar alguns dias vivendo uma experiência diferente da rotina. Talvez seja justamente por isso que aquelas imagens de 1985 continuem tão interessantes para quem gosta de campismo. Antes de existir o festival como uma grande indústria de experiências, havia simplesmente uma barraca, um grupo de amigos, um churrasco e a vontade de estar perto do palco.

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