A Esperança na Concessão de Parques e Unidades de Conservação Para o Campismo. O Que Realmente Mudou?

Nos últimos anos, uma mudança silenciosa começou a transformar a maneira como o brasileiro visita algumas das principais unidades de conservação do país. Parques nacionais e estaduais passaram a conceder à iniciativa privada serviços de visitação, com a promessa de novos investimentos, melhoria da infraestrutura e ampliação da oferta turística. A iniciativa já era defendida amplamente pelo MaCamp através de seus trabalhos de fomento e palestras. Não há forma mais indicada para se aprofundar no conhecimento da natureza do que estar inserido nela e ampliando o seu tempo de conexão. Para o campismo, entretanto, surgiu uma pergunta bastante específica: se o objetivo é aumentar a permanência dos visitantes e diversificar as experiências dentro das unidades de conservação, o que aconteceu com as áreas de camping? Esta era não só uma luz no fim do túnel como também um anúncio nos editais de concessão de unidades e parques. O levantamento do MaCamp mostra uma situação bastante heterogênea. Existem parques onde o camping foi expressamente incluído no contrato de concessão e funciona normalmente; outros onde a estrutura foi prevista, mas ainda não foi entregue; e unidades onde a concessão avançou sem que o campismo fizesse parte da operação.

CONCESSÃO NÃO É PRIVATIZAÇÃO: Antes de entrar na questão do camping, é importante esclarecer o que significa a concessão de um parque. No modelo utilizado pelo governo federal, o território continua sendo público e a gestão ambiental permanece com o órgão responsável pela unidade. O que é transferido ao parceiro privado são serviços de apoio à visitação, como cobrança de ingressos, estacionamento, alimentação, transporte, hospedagem e determinadas atividades turísticas. O próprio ICMBio explica que o objetivo é atrair investimentos privados para melhorar a infraestrutura e os serviços oferecidos aos visitantes, mantendo a responsabilidade pública pela gestão da unidade.

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DEZ PARQUES NACIONAIS NO NOVO CICLO: Considerando as concessões de serviços de apoio à visitação atualmente em vigor ou em implantação, o cenário federal chega a cerca de dez parques nacionais, considerando individualmente os parques abrangidos pelo contrato conjunto de Aparados da Serra e Serra Geral. A lista inclui Iguaçu, Aparados da Serra, Serra Geral, Itatiaia, Chapada dos Veadeiros, Tijuca, Fernando de Noronha, Chapada dos Guimarães, Jericoacoara e Serra dos Órgãos. Os contratos, entretanto, não são iguais. Alguns abrangem praticamente toda a estrutura turística de visitação, enquanto outros se concentram em determinados serviços e instalações. Em 2024, o relatório anual do ICMBio registrou 5,22 milhões de visitantes nos contratos de concessão então contabilizados, com Iguaçu, Tijuca e Fernando de Noronha entre as unidades de maior movimentação.

CHAPADA DOS VEADEIROS: CAMPING ESTÁ NO CONTRATO: Um dos exemplos mais claros é o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, em Goiás. O contrato de concessão inclui expressamente recepção, alimentação, conveniências, transporte interno e **campismo**. A concessão foi assinada em 2018 e possui vigência até 2038, prorrogável por mais cinco anos. Neste caso, portanto, o camping não é uma atividade estranha ao modelo de concessão. Ele faz parte do próprio serviço delegado.

APARADOS DA SERRA: O CAMPING QUE AINDA NÃO SAIU DO PAPEL: O caso dos Parques Nacionais de Aparados da Serra e Serra Geral é particularmente interessante. A concessão prevê investimentos em estruturas de visitação, incluindo o Camping Gralha Azul. Porém, no levantamento oficial do ICMBio sobre os investimentos obrigatórios, a implantação do camping ainda aparece como **não entregue**. A mesma situação ocorre com outras estruturas de hospedagem previstas no contrato. A situação ganha importância para o caravanismo porque a própria política de preços do parque registra uma categoria específica para vans e motor homes. Atualmente, entretanto, a tabela informa que esses veículos podem estacionar, mas o **pernoite é proibido**. Importante ressaltar que este parque já contava com uma ótima infra-estrutura para visitação e teve o valor do seu ingresso multiplicado por mais de 10X.

QUANDO O CAMPING É RECUPERADO: Em Minas Gerais, o movimento tomou outro caminho. O Parque Estadual do Ibitipoca, uma das unidades estaduais mais tradicionais do estado, já possuía camping antes da concessão. A nova operação manteve essa possibilidade e, em 2026, o parque passou a oferecer novamente uma área oficial de camping. No vizinho Parque Estadual do Itacolomi, também concessionado, o resultado foi ainda mais visível. A unidade foi reaberta em 2026 depois de obras de recuperação e voltou a oferecer camping, agora operado pela concessionária Parquetur. A estrutura atualmente anunciada possui espaços para barracas, banheiros com banho quente, vestiários, área para preparação de alimentos e área de convivência.

TAINHAS: UM CAMPING PREVISTO DESDE O PLANEJAMENTO: No Rio Grande do Sul, o Parque Estadual do Tainhas representa outro modelo. O projeto de concessão previa a implantação de camping e glamping. Os estudos econômicos chegaram a trabalhar com uma projeção de 100 unidades de camping e dez unidades de glamping. O próprio plano de manejo do parque determina que o campismo ocorra em áreas específicas e estabelece que o camping seja administrado por meio de concessão de serviço público.  Mas houve um problema: a área inicialmente escolhida para o futuro camping foi identificada como banhado, o que inviabilizou sua instalação naquele ponto. A localização precisaria ser revista. É um exemplo de como uma estrutura prevista em um projeto de concessão não necessariamente se transforma imediatamente em uma estrutura disponível ao visitante.

NEM TODA CONCESSÃO TEM CAMPING: Há também parques nos quais a concessão não resultou em área de acampamento. O Parque Nacional do Iguaçu, por exemplo, possui uma das maiores operações privadas de visitação do país, com estacionamento, transporte,  limentação, lojas e diversos atrativos, mas não se transformou em destino de camping dentro da área concedida. No Parque Nacional da Tijuca, no Rio de Janeiro, as concessões estão concentradas em serviços como transporte, estacionamento, alimentação e operação do Trem do Corcovado e do complexo Paineiras-Corcovado. Fernando de Noronha também possui concessão de serviços de visitação, mas o modelo turístico da ilha não utiliza camping como uma de suas principais estruturas de hospedagem. Chapada dos Guimarães e Jericoacoara, por sua vez, entraram mais recentemente no ciclo de grandes concessões federais, com contratos de 30 anos.

O CASO SERRA DOS ÓRGÃOS: O Parque Nacional da Serra dos Órgãos é particularmente simbólico porque possui uma longa história de concessão de serviços de camping. O primeiro contrato de concessão de serviços de apoio à visitação, assinado em 2010, incluía cobrança de ingressos, estacionamento, transporte interno, campings e abrigos de montanha. O contrato chegou ao fim e o parque passou por um período de dificuldades operacionais. O modelo voltou a ser estruturado e o atual projeto de concessão novamente inclui serviços ligados aos campings e abrigos de montanha. A página oficial do parque informa atualmente a existência de contrato de concessão envolvendo cobrança de ingressos, abrigos, estacionamentos e campings.

O QUE A EXPERIÊNCIA MOSTRA: Depois de alguns anos de concessões, o cenário está longe de ser uniforme. Há parques em que o camping foi incorporado ao contrato e funciona; parques onde antigas áreas de camping foram recuperadas; projetos que previram novas estruturas de acampamento mas ainda não as entregaram; e unidades em que a concessão foi estruturada principalmente para estacionamento, transporte, alimentação, ingressos e atrações, sem camping. Também fica claro que **conceder um parque não significa obrigatoriamente criar camping**. A concessionária só pode ser obrigada a entregar aquilo que estiver previsto no contrato, no caderno de encargos e nos demais instrumentos que regem a concessão. Por isso, para o campista, a pergunta mais importante não é simplesmente se determinado parque foi concessionado. É saber **o que exatamente foi concessionado e quais estruturas de pernoite foram previstas como obrigação contratual**. E é justamente nesse ponto que o acompanhamento das concessões pode revelar uma mudança importante para o campismo brasileiro: pela primeira vez, além de barracas, a própria legislação federal passou a reconhecer explicitamente o **veículo motor-casa** como parte da infraestrutura possível de visitação em unidades de conservação.

A FEBRE DOS GLAMPINGS: Não só conceitualmente, nós do MaCamp somos testemunhas de que a febre pelo Glamping é realidade. Nos últimos anos, diversos interessados em concessões nos consultaram sobre o tema. A verdade é que a brecha pode ser uma forma perigosa de implantação de construções irregulares e sem conexão com a pauta do local. Glamping não é camping, e na prática, usa-se o conceito de um camping com glamour para se construir edificações com elementos mais naturais, mas que não deixam de ser chalés ou mansões com hidromassagens e outros luxos em locais totalmente dentro da mata. Não que uma unidade de conservação não deva ter suítes, porém em locais junto ao centro de visitação e com todos os cuidados necessários de saneamento, uso racional da água e ambientais. Já os campings, que também devem seguir os mesmos cuidados e localização, devem prezar pelo equipamento a ser levado pelo campista, uso de banheiros e cozinha compartilhados que por sua natureza já forçam o uso racional dos recursos. Áreas para veículos de recreação também podem ser muito bem-vindas dentro destes conceitos. Será que o futuro reserva algo positivo para o campismo e caravanismo? Precisamos refletir.

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