Durante a crise sanitária global de 2020, uma situação pouco conhecida dos brasileiros ganhou evidência em Portugal: moradores permanentes em campings precisaram ser protegidos por medidas emergenciais do governo. Enquanto no Brasil os campings são tradicionalmente associados ao turismo e ao lazer em sua maioria (apesar de haver sim, pessoas morando por opção), em território português eles também abrigam uma parcela da população que encontrou nesses espaços uma alternativa de morada — muitas vezes por falta de acesso à habitação convencional. Com o decreto do estado de emergência e o fechamento generalizado de atividades, incluindo parques de campismo, surgiu um impasse: retirar essas pessoas significaria deixá-las sem teto. Diante desse cenário, o governo adotou uma solução excepcional. Foi permitido que os residentes permanentes permanecessem nos campings, desde que já estivessem instalados antes das restrições. A medida reconheceu, ainda que de forma temporária, a função habitacional desses espaços. Os operadores dos campings passaram a ser responsáveis por garantir condições mínimas, como fornecimento de água, energia e segurança, mantendo o funcionamento básico necessário para a permanência dos moradores.
A decisão, no entanto, evidenciou uma contradição: apesar de servirem como moradia para muitos, os campings não são legalmente reconhecidos como residência fixa em Portugal. A pandemia apenas escancarou uma realidade social já existente, marcada por soluções improvisadas e pela fragilidade habitacional de parte da população. Para o universo do campismo e caravanismo, o episódio trouxe uma reflexão importante: mais do que lazer, esses espaços também podem assumir um papel social relevante — especialmente em momentos de crise.




