Em meios às maiores polêmicas dos setores do turismo e também do caravanismo, Ubatuba-SP tem sido a campeã de reclamações. Além de cobrar há mais de um ano a TPA (Taxa de Preservação Ambiental), também firmou regras de proibição de estacionamento e pernoite de motor homes em suas vias públicas. Não contente com isto, já pleiteou o uso do dinheiro da taxa para demais fins que não a natureza e agora quer subir o valor da TPA em mais de 80% e já aprovou o aumento da Zona Azul em 150%. Moradores continuam reclamando da falta de saneamento e cuidados. Viajantes reclamam de exploração.
UMA CONTA QUE NÃO PARA DE CRESCER: A sequência de cobranças chama a atenção justamente por atingir diretamente quem chega à cidade para consumir seus serviços turísticos. A Zona Azul nas praias, que atualmente custa R$ 20 para até 12 horas, passará para R$ 50 a partir de 9 de outubro. O novo valor será aplicado das 7h às 19h em 18 praias e regiões, incluindo locais como Praia Grande, Tenório, Toninhas, Enseada e Itamambuca. O reajuste representa 150% sobre o valor atualmente praticado.
MAIS R$ 5 POR HORA: Não é somente quem estaciona próximo às praias que sentirá o aumento. Na chamada Zona Azul Cidade 2, que engloba a região do Itaguá e a Avenida Iperoig, além de alguns bolsões de estacionamento, a tarifa passará de R$ 2 para R$ 5 por hora, entre 7h e 23h. Segundo a Prefeitura, a atualização considera os custos operacionais, a demanda das áreas abrangidas e a necessidade de investimentos em fiscalização, sinalização, atendimento e modernização tecnológica.
E A TPA TAMBÉM SOBE: Paralelamente ao aumento da Zona Azul, a Prefeitura encaminhou à Câmara Municipal o Projeto de Lei Complementar nº 08/2026, propondo elevar a TPA dos veículos de pequeno porte de R$ 13,86 para R$ 25 por dia. O aumento nominal é de 80,38% e, conforme a proposta, será aplicado proporcionalmente às demais categorias de veículos. A Prefeitura afirma que a proposta foi precedida por estudo técnico, econômico e ambiental baseado em dados coletados entre agosto de 2025 e julho de 2026.
O TURISTA PAGA ANTES MESMO DE CONSUMIR: Com a atual TPA de R$ 13,86 e a Zona Azul de R$ 20, o visitante que chegava de automóvel e utilizava uma vaga na praia já desembolsava R$ 33,86 somente nessas duas cobranças. Com a Zona Azul de R$ 50, a mesma combinação passa para R$ 63,86. Se a proposta da nova TPA for aprovada, chegará a R$ 75 por dia. A própria Associação Comercial de Ubatuba (ACIU) chamou atenção para essa composição de custos e defendeu que melhorias e planejamento precedam novos reajustes.
O CASO DOS MOTOR HOMES: Para o caravanismo, a discussão ganha outra dimensão. O motor home não é apenas um automóvel que chega à cidade: é um equipamento de turismo que transporta hospedagem, alimentação, equipamentos e serviços dentro do próprio veículo. Mesmo assim, seus usuários estão submetidos à TPA e às regras municipais de estacionamento. Os próprios dados oficiais da TPA mostram que a categoria “Motor-Casa” é registrada separadamente pela Prefeitura. Em junho de 2026, por exemplo, foram contabilizados 214 pagamentos líquidos correspondentes a 254 diárias de motor homes, com R$ 10.512,72 em pagamentos e R$ 179,21 classificados como tarifa.
PARA ONDE VAI O DINHEIRO? A Prefeitura apresenta a TPA como uma fonte de recursos destinada à conservação ambiental, justificando a cobrança pelo impacto causado pela variação da população durante feriados e temporadas. A própria página oficial de transparência da TPA apresenta os valores arrecadados, custos administrativos, repasses à concessionária e valores destinados à Prefeitura. Em julho de 2026, por exemplo, foram registrados R$ 3,269 milhões em tarifas geradas, dos quais R$ 2,451 milhões aparecem como repasse para a Prefeitura.
O PROBLEMA É A CONTRAPARTIDA: É justamente nesse ponto que está uma das principais críticas de moradores e visitantes. Cobrar por preservação ambiental, estacionamento e acesso turístico pode ser uma política pública legítima, mas o debate passa inevitavelmente pela qualidade dos serviços oferecidos em troca. Quando o visitante encontra sucessivas cobranças e, ao mesmo tempo, reclamações sobre infraestrutura, saneamento, estacionamento e organização urbana, a percepção de que o turismo está sendo utilizado prioritariamente como fonte de arrecadação ganha força.
TURISMO OU ARRECADAÇÃO? A pergunta que fica para Ubatuba não é simplesmente quanto o turista deve pagar. É o que a cidade pretende oferecer para que esses valores sejam compreendidos como investimento no destino turístico e não apenas como mais uma despesa para quem chega. A Prefeitura justifica os reajustes pela necessidade de manter sistemas de fiscalização, estacionamento e preservação. O visitante, por outro lado, avalia a cidade pela experiência que encontra.
O RISCO DE AFASTAR QUEM MOVIMENTA A ECONOMIA: Turismo é uma cadeia. O visitante que chega de carro ou motor home não deixa dinheiro somente na vaga de estacionamento ou na TPA. Ele abastece, compra alimentos, frequenta restaurantes, visita atrações, contrata passeios, utiliza serviços e movimenta o comércio local. Por isso, a discussão sobre o preço cobrado para entrar, estacionar ou permanecer na cidade não pode ser dissociada do impacto que essas decisões podem produzir sobre o comportamento do próprio visitante.
UBATUBA PRECISA DECIDIR QUE TURISMO QUER: A cidade possui alguns dos destinos naturais mais conhecidos do litoral paulista e tem no turismo uma de suas principais atividades econômicas. A discussão atual, portanto, vai muito além de R$ 20, R$ 50 ou R$ 25. Trata-se de definir se as cobranças serão acompanhadas de planejamento, infraestrutura, transparência e serviços capazes de justificar os valores pagos por quem escolhe Ubatuba como destino. Para o setor de caravanismo, a questão é ainda mais sensível. O motor home pode permanecer poucos dias ou semanas na região e movimentar diversos setores da economia sem necessariamente depender de uma estrutura hoteleira convencional. Criar condições para receber esse público, em vez de simplesmente restringir sua circulação ou permanência, pode fazer parte de uma política turística mais ampla. A discussão está apenas começando. O aumento da Zona Azul já foi regulamentado e tem início previsto para 9 de outubro. Já o reajuste da TPA depende da tramitação e aprovação do projeto encaminhado à Câmara Municipal.









